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Luana Godoy

8 de set. de 2026

#10 Criados para criar: a fotografia como exercício de enxergar o invisível

Toda fotografia começa como um gesto de atenção.

Algo nos faz parar: uma luz atravessando a janela, duas mãos que se encontram, um objeto guardado há muitos anos, uma pessoa recolhida em oração ou a maneira como alguém ocupa silenciosamente um espaço. Fotografar é perceber que há alguma coisa diante de nós que merece permanecer.


Compreendi que criar uma imagem não depende apenas do domínio da técnica. A técnica é importante, mas não é suficiente para dizer por que escolhemos determinada cena, por que uma imagem nos toca ou por que certos gestos aparentemente simples permanecem em nossa memória.


Antes de aprender a fotografar, precisamos aprender a olhar.


Fomos criados para criar - Essa compreensão se aproxima de uma convicção que há muito tempo acompanha meu processo criativo: fomos criados para criar. A criatividade não pertence somente aos artistas, nem se manifesta apenas em obras reconhecidas como arte. Ela aparece sempre que transformamos o que recebemos em algo capaz de gerar beleza, sentido, cuidado ou encontro quando chega aos olhos do outro.


Estamos criando quando organizamos uma casa, contamos uma história, preparamos uma refeição, encontramos uma nova maneira de resolver um problema, ou usamos nossos dons para servir alguém. Até quando sonhamos estamos criando! Criar também significa dar forma àquilo que ainda não sabemos explicar completamente.


Se fomos criados por um Deus que é criador, nossa capacidade de criar não pode ser compreendida apenas como habilidade ou produtividade. Ela é também um chamado á algo maior, à participação, à responsabilidade e à presença. Os dons que recebemos não foram feitos para permanecer escondidos pelo medo, pela comparação ou pela sensação de que aquilo que fazemos nunca é suficiente.


Parábola dos talentos - Na parábola dos talentos, narrada no Evangelho de Mateus, cada pessoa recebe algo pelo qual deverá responder. Os talentos não são distribuídos de maneira idêntica, mas todos carregam uma possibilidade de frutificar. Da mesma forma, São Paulo recorda, na Carta aos Romanos, que recebemos diferentes dons. A diferença não diminui o valor de nenhum deles mas revela que cada pessoa possui uma maneira própria de contribuir.


A autenticidade criativa começa quando deixamos de tentar reproduzir a voz de outra pessoa e assumimos a responsabilidade pela maneira particular como aprendemos a ver através de nossos olhos apenas.


Na fotografia, isso se torna muito evidente. Duas pessoas podem estar diante da mesma cena e produzir imagens completamente diferentes. Uma perceberá a luz, outra, o gesto. Alguém escolherá mostrar o espaço inteiro, enquanto outra pessoa se aproximará de um detalhe quase imperceptível. Cada decisão como enquadramento, distância, foco, cor, tempo e ponto de vista revela uma forma de se relacionar com aquilo que está sendo visto.


A linguagem das escolhas - Por isso, fotografar nunca é simplesmente registrar tudo ou apenas o que está diante da câmera. Toda fotografia nasce de uma escolha, assim como o amor. Algo permanece dentro da imagem e algo fica fora dela. Entre o visível e o que não conseguimos mostrar completamente, surge uma linguagem, um caminho.


Essa linguagem se torna especialmente delicada quando fotografamos manifestações de fé. O sagrado nem sempre está no acontecimento mais grandioso ou no símbolo mais evidente. Muitas vezes, ele aparece no silêncio, na espera, na luz, na repetição de um rito ou na intimidade de um gesto. Pode estar nas mãos de alguém que segura uma vela, no corpo que se inclina, em um olhar que não se dirige à câmera ou nos vestígios deixados depois de uma celebração.


Fotografar o sagrado é aprender a enxergar o invisível sem invadir o mistério.

A câmera não consegue explicar a fé de uma pessoa. Também não pode reproduzir integralmente o que ela sente. Mas a fotografia pode construir sinais dessa experiência. Pode aproximar luz, corpo, espaço, gesto e silêncio de maneira que o observador perceba a existência de algo que ultrapassa aquilo que está literalmente representado. Talvez essa seja uma das maiores potências da imagem: não mostrar tudo, mas criar condições para que algo seja sentido no outro.


Isso também acontece nas fotografias de família. Uma casa fotografada não é apenas um conjunto de paredes, móveis e objetos. Ela carrega formas de convivência, marcas do tempo, ausências e memórias. Uma mesa pode falar dos encontros que aconteceram ao seu redor. Uma janela pode guardar a lembrança de uma espera. Um objeto aparentemente comum pode atravessar gerações e tornar-se portador de uma história que nem todos os membros daquela família chegaram a viver.


Quando essas coisas são fotografadas, a imagem não mostra somente aquilo que estava visível no momento do disparo. Ela também oferece pistas sobre aquilo que permanece: vínculos, afetos, rituais e modos de habitar o mundo.


Transmissão de memória - A fotografia participa, assim, da transmissão da memória. Quem olha uma imagem anos depois pode não conhecer todas as circunstâncias de sua criação, mas encontra nela gestos, espaços e objetos capazes de despertar reconhecimento e pertencimento. Algumas imagens atravessam gerações justamente porque continuam produzindo sentidos que ultrapassam o momento em que foram feitas.


Criar uma fotografia exige, portanto, mais do que chegar a uma cena com respostas prontas. Exige disponibilidade. É necessário diminuir o ritmo, ter calma, observar e permitir que alguma coisa nos alcance no íntimo. Depois vem a escolha: compreender o que é essencial e decidir onde colocar a atenção. Somente então a técnica assume sua verdadeira função, sustentando a intenção da imagem que você decidiu criar.


Criar não significa produzir continuamente, nem fazer tudo de maneira perfeita. Há um tempo para começar, um tempo para esperar, um tempo para abandonar uma ideia e outro para retomá-la, como recorda o livro do Eclesiastes. A criação também possui silêncios, pausas e amadurecimentos.


Talvez o maior desafio seja não enterrar aquilo que recebemos por medo de que ainda não seja suficientemente bom ou suficientemente arte. Criar com autenticidade é oferecer aquilo que somos capazes de fazer hoje, com responsabilidade, verdade e abertura para continuar aprendendo.


Fomos criados para criar porque carregamos a capacidade de reconhecer sentidos, transformar experiências e devolver ao mundo algo que passou pelo nosso olhar. Na fotografia, esse gesto começa quando escolhemos prestar atenção e levar adiante.


Uma imagem não torna o mistério completamente visível. Mas pode apontar para ele. Pode preservar um gesto, acolher uma memória e fazer com que alguém reconheça, em uma cena simples, algo que também habita sua própria história.

© 2025 por Luana Godoy.

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